Os comportamentos tolerados hoje definem a cultura que a empresa viverá amanhã


Toda empresa possui uma cultura, ainda que nunca tenha parado para nomeá-la. Ela se manifesta na forma como as pessoas se comunicam, nas decisões que são tomadas, na maneira como os conflitos são conduzidos e, principalmente, nos comportamentos que passam a ser aceitos como normais dentro daquele ambiente.

Muitas organizações investem tempo e energia construindo discursos sobre seus valores. Falam sobre respeito, colaboração, ética, inovação e protagonismo. Mas a cultura real de uma empresa não é definida apenas pelo que está escrito em apresentações, campanhas internas ou declarações institucionais. 

Ela aparece no cotidiano, nas pequenas escolhas e nas atitudes que recebem reconhecimento, correção ou, em muitos casos, simplesmente nenhuma consequência. É nesse espaço entre o discurso e a prática que a cultura começa a se consolidar.

Quando uma liderança presencia um comportamento inadequado e escolhe não intervir, a mensagem que é transmitida naquele momento é que aquilo é aceitável. Se um gestor valoriza apenas os resultados alcançados, independentemente da forma como eles foram obtidos, um padrão começa a ser reforçado.

Quando conversas necessárias são evitadas para preservar o conforto do momento, problemas que poderiam ser tratados passam a fazer parte da rotina. A omissão também comunica e, nas organizações, muitas vezes ela fala mais alto do que qualquer discurso. É justamente nas decisões que deixam de ser tomadas que a liderança revela, ainda que involuntariamente, aquilo que considera aceitável.

Com o passar do tempo, comportamentos isolados deixam de parecer exceções e passam a ser interpretados como parte da identidade daquela equipe. É assim que frases como "é assim que as coisas funcionam por aqui" ganham força. E, quando isso acontece, a cultura deixa de ser apenas observada. Ela passa a ser ensinada diariamente, principalmente pelas atitudes da liderança.

Edgar Schein, uma das principais referências no estudo da cultura organizacional, destaca o papel central dos líderes na formação e manutenção da cultura. As organizações aprendem aquilo que seus líderes acompanham, valorizam, reconhecem, corrigem e permitem permanecer. Ou seja, a cultura não é construída apenas pelo que a empresa declara valorizar, mas também pelo que ela escolhe reforçar.

Um profissional pode possuir excelente capacidade técnica, entregar resultados importantes e, ainda assim, enfraquecer o ambiente ao seu redor por meio de atitudes incompatíveis com a cultura que a organização deseja construir. Quando esses comportamentos são ignorados em nome da performance, a mensagem transmitida para os demais profissionais é de que o resultado pode justificar a forma como ele foi alcançado.

Da mesma forma, equipes comprometidas podem ter seu potencial reduzido quando convivem com padrões de comportamento que não estão alinhados aos valores da organização e que não recebem a devida atenção da liderança.

A cultura organizacional não muda apenas porque uma empresa atualiza seus valores ou comunica novas expectativas. Ela muda quando existe coerência entre aquilo que a organização afirma valorizar e aquilo que suas lideranças demonstram no cotidiano. O maior desafio da gestão não está em definir valores. Está em garantir que eles sobrevivam às decisões do cotidiano.

Porque uma empresa pode falar sobre respeito, mas precisa observar como as pessoas são tratadas. Ela pode defender colaboração, mas precisa analisar quais comportamentos são incentivados. E pode valorizar ética, mas precisa avaliar quais atitudes são aceitas quando envolvem pessoas de alto desempenho.

Empresas costumam investigar as causas da queda de produtividade, do aumento do turnover ou dos conflitos internos. Poucas, porém, fazem uma pergunta anterior: quais comportamentos estamos fortalecendo todos os dias sem perceber?

Por isso, antes de analisar apenas metas, entregas e indicadores, talvez seja necessário observar quais comportamentos estão sendo fortalecidos todos os dias dentro da organização. Porque culturas organizacionais não mudam de um dia para o outro. Elas são construídas lentamente, decisão após decisão, comportamento após comportamento.

E aquilo que uma liderança escolhe tolerar hoje dificilmente deixará de fazer parte da cultura da empresa amanhã.


Sobre a autora

Cleide Vieira é administradora e especialista em Gestão, Desenvolvimento Organizacional e Liderança. Atua no desenvolvimento de lideranças e no fortalecimento das relações de trabalho, apoiando empresas na construção de equipes mais engajadas, ambientes mais saudáveis e lideranças mais preparadas para os desafios da gestão contemporânea.

Desenvolve seu trabalho por meio de diagnósticos organizacionais, treinamentos corporativos, workshops, palestras e da Mentoria A FORJA, metodologia voltada ao desenvolvimento de líderes e equipes.

📩 Contato: vamosfalarsobregestao@gmail.com


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