Conhecimento, sozinho, não transforma organizações. Comportamentos sustentados sim.

Por que treinamentos, processos e estratégias falham quando a cultura continua reforçando os mesmos padrões de comportamento?
Uma organização pode investir em conhecimento, contratar treinamentos, desenvolver lideranças, revisar processos, estabelecer novos valores e comunicar estratégias ambiciosas. Ainda assim, os mesmos conflitos podem continuar acontecendo, as mesmas decisões podem continuar sendo tomadas e os mesmos problemas podem reaparecer, mesmo depois de sucessivas iniciativas de desenvolvimento. Isso acontece porque conhecer não é o mesmo que transformar conhecimento em comportamento.
Saber que é preciso delegar não significa, necessariamente, conseguir delegar. Conhecer técnicas de feedback não significa estar preparado para sustentar uma conversa difícil. Participar de uma formação sobre liderança não garante que um gestor passará a ouvir melhor sua equipe. Compreender a importância da colaboração não significa, por si só, abandonar comportamentos individualistas. Existe uma distância entre saber o que fazer e conseguir fazer diferente.
Entre aquilo que uma pessoa sabe e aquilo que efetivamente faz, existe um espaço que nenhuma quantidade de conteúdo, sozinha, consegue preencher. Essa diferença aparece de maneira importante nos estudos de Chris Argyris e Donald Schön sobre aprendizagem organizacional. Os autores distinguem situações em que indivíduos e organizações corrigem erros sem questionar os pressupostos que orientam suas ações daquelas em que esses próprios pressupostos são revisados. E isso muda completamente a conversa sobre desenvolvimento.
Uma organização pode ensinar uma nova técnica de liderança sem questionar a cultura que faz com que seus líderes continuem centralizando decisões. Pode ensinar comunicação, mas continuar premiando quem evita conversas difíceis. Pode falar sobre colaboração enquanto seus sistemas de reconhecimento estimulam a competição interna. O conhecimento pode estar presente. O comportamento, entretanto, pode continuar exatamente o mesmo.
Peter Senge amplia essa discussão ao tratar das organizações que aprendem. Sua proposta mostra que aprendizagem organizacional não pode ser reduzida à capacitação individual. Ela envolve modelos mentais, aprendizagem em equipe, visão compartilhada, domínio pessoal e, principalmente, a capacidade de enxergar as relações entre diferentes elementos do sistema.
Uma organização aprende quando consegue perceber não apenas o erro, mas também os padrões e estruturas que continuam produzindo aquele erro. Talvez seja por isso que algumas empresas pareçam estar permanentemente tentando resolver os mesmos problemas.
Troca-se a ferramenta, mas não o comportamento. Muda-se o processo, mas não a lógica que orienta as decisões. Contrata-se um novo líder, mas mantém-se a mesma cultura. Realiza-se outro treinamento, mas não se modifica o ambiente no qual aquele conhecimento deveria ser aplicado. E então surge uma conclusão aparentemente simples: "as pessoas não mudam".
Talvez seja preciso olhar um pouco além. Isso não significa retirar das pessoas a responsabilidade por suas escolhas. Líderes continuam responsáveis por suas decisões, comportamentos e consequências. Mas comportamento não acontece no vazio. Ele é influenciado pelo contexto, pelas relações, pelos incentivos e pelas consequências associadas àquilo que fazemos.
Em um estudo publicado em 1999, Amy Edmondson investigou a relação entre segurança psicológica e comportamentos de aprendizagem em equipes. Sua pesquisa mostrou que, quando as pessoas percebem que podem fazer perguntas, admitir erros, pedir ajuda ou trazer problemas sem receio de consequências interpessoais negativas, os comportamentos de aprendizagem tendem a ser mais frequentes.
O ponto aqui não é afirmar que segurança psicológica resolve todos os problemas organizacionais, mas reconhecer algo fundamental: as pessoas precisam encontrar no ambiente condições para transformar conhecimento em ação.
Uma liderança pode aprender sobre escuta, mas precisa ter espaço para ouvir. Uma equipe pode aprender sobre colaboração, mas precisa encontrar condições para colaborar. Um profissional pode compreender a importância de assumir responsabilidade, mas precisa trabalhar em um ambiente no qual reconhecer um erro não seja automaticamente transformado em punição.
É nesse ponto que a cultura organizacional entra na discussão. E Edgar Schein, uma das principais referências no estudo da cultura organizacional, diferencia aquilo que é visível na organização, os valores que ela declara e os pressupostos mais profundos que orientam o comportamento. Essa perspectiva ajuda a explicar por que uma empresa pode afirmar que valoriza respeito, colaboração ou inovação e, ainda assim, produzir diariamente comportamentos incompatíveis com esses valores.
Porque a cultura não está apenas naquilo que a organização declara valorizar. Ela também está naquilo que as pessoas percebem que realmente importa: Quem é promovido? O que é recompensado? O que é tolerado? O que é ignorado? O que é punido? O que pode ser questionado? E aquilo sobre o qual todos aprenderam que é melhor permanecer em silêncio? Toda organização ensina, inclusive quando não está treinando ninguém.
Uma empresa ensina quando um líder interrompe constantemente sua equipe e ninguém intervém. Ensina quando uma pessoa traz um problema e é tratada como alguém que "reclama demais". Ensina quando um comportamento inadequado é tolerado porque determinado profissional entrega resultados. Ensina quando uma nova ideia é ridicularizada e, depois disso, ninguém mais se dispõe a apresentá-la. Esses episódios podem parecer pequenos, mas comportamentos repetidos deixam de ser episódios. Tornam-se padrões.
É justamente aqui que a contribuição de James Clear, em Hábitos Atômicos, pode ser utilizada como uma lente interessante. Embora seu trabalho não seja especificamente sobre cultura organizacional, sua discussão sobre a força da repetição ajuda a compreender como pequenas ações realizadas de forma consistente podem se transformar em padrões de comportamento.
Nas organizações, esses padrões ganham uma dimensão coletiva. Uma conversa evitada hoje pode se tornar o padrão de comunicação de uma equipe. Uma decisão sempre centralizada pode transformar-se em dependência. Uma crítica constantemente tolerada pode estabelecer uma forma de relacionamento. Uma iniciativa repetidamente ignorada pode ensinar às pessoas que não vale a pena propor mudanças.
É assim que comportamentos começam a ganhar força cultural. E, mais importante, depois de um treinamento não é quantas pessoas participaram, quanto conteúdo foi apresentado ou quantos certificados foram emitidos. Mas o que essas pessoas passaram a fazer de diferente? E existe outra pergunta, ainda mais importante: O ambiente permitiu que elas continuassem fazendo diferente?
Essa mudança de perspectiva também altera a forma como pensamos sobre desenvolvimento de pessoas. Se o objetivo é transformar comportamento, não basta medir presença, satisfação ou conclusão de cursos. É necessário observar o que acontece na prática: como as decisões mudam, como as conversas acontecem, como os conflitos são tratados, como as responsabilidades são assumidas e quais comportamentos passam a se repetir.
Porque o verdadeiro resultado do desenvolvimento não aparece necessariamente na sala de treinamento. Ele aparece depois dela. E talvez seja por isso que algumas organizações investem continuamente em desenvolvimento e continuam enfrentando os mesmos problemas. Elas acumulam conhecimento, mas não necessariamente constroem as condições para que esse conhecimento se transforme em prática.
No fim, uma organização não é transformada pelo que ensina uma vez. Ela é transformada pelo que consegue sustentar repetidamente. Pois, conhecimento pode ampliar a compreensão, pode provocar reflexão, pode oferecer novas possibilidades, no entanto, é o comportamento repetido que começa a tornar uma nova possibilidade parte da realidade.
Uma cultura não muda porque alguém explicou como ela deveria ser. Ela muda quando as pessoas começam a agir de outra maneira, e encontram no próprio ambiente condições para continuar agindo assim.
E hoje eu te pergunto:
Que comportamentos a sua organização está ensinando, todos os dias, por aquilo que recompensa, tolera e repete?
Comentários
Postar um comentário