As pessoas não deixam a vida do lado de fora da empresa
Todos os dias, milhares de profissionais atravessam a porta de uma organização carregando muito mais do que um crachá, um notebook ou uma lista de tarefas. Chegam trazendo preocupações financeiras, conflitos familiares, noites mal dormidas, problemas de saúde, ansiedade, incertezas sobre o futuro, cobranças pessoais e profissionais.
Situações que, muitas vezes, permanecem invisíveis aos olhos de quem observa apenas o desempenho. Ainda assim, é comum que algumas organizações esperem que, ao iniciar o expediente, seus colaboradores deixem tudo isso para trás. Contudo, não é possível separar a vida pessoal da vida profissional. As pessoas não deixam a vida do lado de fora da empresa.
E talvez esse seja um dos maiores equívocos que ainda persistem na forma como muitas organizações compreendem o trabalho. Um ponto de reflexão importante também, para a liderança contemporânea.
O que não vemos também influencia os resultados
Nas organizações, ainda é comum associar mudanças de comportamento, exclusivamente à falta de comprometimento ou à baixa performance. Quando um colaborador se torna mais reservado, demonstra irritação, apresenta dificuldades de concentração ou reduz seu desempenho, a primeira tendência costuma ser buscar respostas na produtividade.
Muitas vezes, o comportamento é apenas a parte visível de uma realidade muito maior. Nem tudo aquilo que afeta o desempenho pode ser identificado em um indicador. E nem tudo o que influencia os resultados aparece em um relatório gerencial.
Liderar pessoas exige compreender essa realidade
A professora Amy Edmondson, da Harvard Business School, uma das principais referências mundiais em Segurança Psicológica, demonstra em suas pesquisas que ambientes nos quais as pessoas se sentem respeitadas e seguras, favorecem a aprendizagem, a colaboração e melhores resultados coletivos.
Essa constatação nos leva a uma reflexão importante. Não se trata de transformar o líder em terapeuta. Nem de esperar que ele resolva os problemas pessoais de sua equipe. Trata-se de reconhecer que pessoas trabalham levando consigo suas histórias, seus desafios e suas emoções. Ignorar essa realidade não faz com que ela deixe de existir.
Liderança também é a forma como fazemos as pessoas se sentirem
Daniel Goleman, referência mundial em Inteligência Emocional, defende que a capacidade de compreender e administrar emoções influencia diretamente a qualidade da liderança. Isso significa que competência técnica continua sendo importante. Mas, sozinha, já não é suficiente.
A forma como um líder se comunica, conduz conversas, demonstra respeito e constrói relações também influencia o ambiente de trabalho e, consequentemente, os resultados. Talvez, seja justamente por isso que duas equipes, com recursos semelhantes e processos parecidos, apresentem níveis tão diferentes de engajamento.
O desafio das organizações
Essa discussão ganha ainda mais relevância diante das mudanças no mundo do trabalho. A atualização da NR-1, ao incluir os riscos psicossociais no Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR), reforça que fatores relacionados à organização do trabalho, às relações interpessoais e ao ambiente organizacional também merecem atenção.
Não porque empresas sejam responsáveis pelos problemas pessoais de seus colaboradores. Mas porque a forma como o trabalho é organizado pode contribuir para reduzir ou intensificar fatores que afetam a saúde e o bem-estar das pessoas.
Essa mudança amplia o olhar sobre a liderança. Ela deixa de ser vista apenas como responsável por entregar resultados e passa a ocupar um papel estratégico na construção de ambientes de trabalho mais saudáveis.
Liderança começa pelas pessoas
Peter Drucker afirmava que "a cultura devora a estratégia no café da manhã." Talvez porque nenhuma estratégia seja capaz de produzir resultados sustentáveis quando as relações de trabalho são marcadas pela indiferença, pelo medo ou pela falta de confiança.
No fim, organizações continuarão sendo feitas de metas, processos, indicadores e tecnologia. No entanto, continuarão sendo movidas por pessoas e pessoas não deixam a vida do lado de fora da empresa.
Liderar, portanto, exige mais do que acompanhar resultados. Exige compreender que, antes de qualquer desempenho, existe um ser humano. E é na forma como a liderança escolhe enxergá-lo e desenvolvê-lo que se constrói um ambiente capaz de gerar resultados sustentáveis.

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